DOENÇAS BENIGNAS DA PRÓSTATA

DOENÇAS BENIGNAS DA PRÓSTATA
9 de abril de 2018 UrologiaVida

Por Dr. Edison Schneider Monteiro, médico da equipe do Urologia Vida

A palavra próstata traz à mente inúmeros mitos, preconceitos e tabus. Conquanto não necessariamente conscientes, eles se expressam nas rodas de amigos, nas piadas e comentários jocosos, e são perpetuados principalmente pela desinformação.

O que é a próstata e pra que serve?

A próstata é uma glândula, se localiza logo abaixo da bexiga urinária e na frente do reto, e envolve a uretra (canal da urina). Facilitando: é como uma castanha e seu miolo seria a uretra. Produz uma secreção que participa do esperma (30%) e atua protegendo, alimentando e ajudando no transporte dos espermatozóides pela uretra (ejaculação). No adulto, tem uma massa aproximada de 20g.

O que tem a ver o toque retal com a próstata?

Como a próstata fica logo na frente do reto, através do toque retal pode-se sentir a superfície da próstata (nódulos, região endurecida), ter uma estimativa do tamanho da próstata e de seus contornos.

Como é feito o toque retal?

Pode ser feito em diferentes posições (deitado de lado, de pé com o tronco inclinado pra frente, deitado de costas com as pernas abertas, ou ainda ajoelhado com o tronco inclinado pra frente). É feito com o dedo indicador, revestido por uma luva de plástico ou de látex, adequadamente lubrificado. Habitualmente não dói, exceto se o paciente já tem algum problema na região do ânus (p. ex. fissura anal). O incômodo causado se deve mais freqüentemente à barreira psicológica do paciente ao exame e não raro os pacientes relatam que é bem mais simples do que imaginavam.

Quando e porque fazer o toque retal?

Em linhas gerais é recomendado que todo homem a partir dos 50 anos faça uma consulta anual ao urologista, na qual deve ser realizado o toque retal e solicitado a dosagem sanguínea do PSA (antígeno prostático específico). Alguns grupos de risco devem começar essa avaliação anual aos 40 anos, incluindo os que têm parentes de 1º e 2º grau que tiveram câncer de próstata e os negros. Recentemente nos EUA, por motivos econômicos, essa idade inicial em pacientes sem fator de risco foi estendida para 55 anos e avaliação bianual, porém a Sociedade Brasileira de Urologia achou por bem manter o início aos 50 anos.

Deixando um pouco de lado essa questão do toque retal, que foi aqui inserida apenas pra dirimir algumas dúvidas e curiosidades logo de início, vamos enfocar as doenças benignas da próstata: prostatite e Hiperplasia benigna da próstata (HPB).

Prostatite

A prostatite, como o próprio nome diz (termina com -ite), é uma inflamação na próstata. Pode ser aguda ou crônica, e em linha gerais, os sintomas são: ardência e maior freqüência pra urinar, podendo ter febre nos casos agudos. Pode acometer jovens com uretrite (doença sexualmente transmissível) ou homens mais velhos com prostatismo (vide abaixo). Geralmente tem dosagem sanguínea de PSA elevada, o que nos obriga a acompanhar de perto aqueles acima de 50 anos, pra possível diferencial com câncer de próstata. O tratamento se dá, habitualmente, à base de antibióticos.

Hiperplasia Benigna da Próstata

Imaginem a cena: Senhor de 65 anos em pé no mictório, mão encostada na parede, a cabeça inclinada sobre a mão. Olho fechado. Urinando, discretamente! Cansado? Dor de cabeça? Tirando uma soneca de pé?

Não! Essa é a figura típica de um paciente que tem a Hiperplasia Benigna da Próstata (HPB).

Jato urinário fraco, interrompido, necessidade de fazer força pra começar urinar, sensação de que a bexiga não está completamente vazia após terminar, ou acordar algumas vezes à noite pra urinar são alguns dos sintomas da HPB, também chamados de prostatismo. Podem apresentar-se em intensidades diversas, e se gravarem com o tempo, podendo culminar com eventuais perdas urinárias e/ou retenção (impossibilidade de urinar).

Mas, o que é a HPB?

Crescimento da próstata, de duas formas diferentes: a) crescimento da parte glandular da próstata, que faz com que a próstata aumente de volume, principalmente a zona de transição (parte interna), comprimindo a uretra; b) aumento proporcional da porção muscular (estroma) da próstata, o que faz com que a próstata comprima a uretra de uma forma dinâmica, isto é, pelo seu tônus muscular aumentado. Essa segunda forma gera os sintomas acima, mesmo em próstatas pequenas. Vale salientar que mesmo próstatas grandes podem não gerar sintomas, se não houver compressão da uretra, e sem sintomas (prostatismo) não está indicada qualquer forma de tratamento, especificamente para a HPB.

Por que?

Todo crescimento tecidual se dá quando a proliferação é mais acentuada que a morte celular. Os reais fatores causadores desse crescimento não são de todo conhecidos, mas sabe-se que além da idade, alterações do equilíbrio hormonal (p. ex. testosterona) estão implicados na formação da HPB. Hereditariedade também é um fator causal importante, principalmente em pacientes mais jovens.

Quando?

O crescimento da próstata se dá em relação direta com o aumento da idade. Estudos de autópsia mostram sinais de HPB em uma minoria já na terceira década, e em cerca de 80-95% dos indivíduos com mais de 80 anos. Apesar da presença de HPB na próstata, nem todos os indivíduos apresentam sintomas relevantes, e cerca de apenas 30-40% vão necessitar de tratamento, geralmente após os 50 anos.

Como diagnosticar?

Partindo-se do pressuposto que todo homem com mais de 50 anos deve ir ao urologista uma vez por ano, para consulta de rotina e avaliação da próstata, visando principalmente o diagnóstico precoce do câncer de próstata, através desse exame o especialista avaliará também os sinais e sintomas concernentes à HPB.

Colocando de forma prática:

a) Sintomas: questionário com 7 perguntas (IPSS), que gradua os sintomas, que são:

jato fraco, intermitente, força para iniciar, sensação de não esvaziar completamente a bexiga, acordar a noite pra urinar, dificuldade pra segurar a urina quando dá vontade e urinar com intervalos menores que 2 horas.

b) Exame físico: Através do toque retal pode-se sentir a próstata aumentada.

c) Exame de urina: pra avaliar infecção urinária e sangue na urina, que podem ser indício de outras doenças.

d) Dosagem sanguínea do PSA: pode estar aumentado, devido à proliferação das glândulas prostáticas. É conduta habitual para valores acima de 4,0 ng/ml solicitar biópsia de próstata para descartar o câncer, mesmo apesar de que próstatas grandes podem elevar bem mais o PSA. Nestes casos outras dosagens auxiliam, como o PSA livre e o PSA complexado. Quando o valor excede 2,5ng/ml pode-se considerar a relação PSA livre/PSA total para se pedir biópsia, bem como a idade do paciente e o tamanho da próstata.

e) Ultrassonografia: Permite avaliar o tamanho da próstata. Se realizada pelo abdome pode-se medir ainda o volume de urina na bexiga, logo após urinar. Se realizada pelo reto, permite a realização de biópsia de próstata, quando indicado.

f) Fluxometria: Urina-se num aparelho que mede a velocidade do jato urinário (a “força”), o tempo necessário e o volume total.

Como tratar?

O tratamento só é iniciado quando os sintomas justificam essa decisão deve ser tomada pelo urologista.

A) Tratamento medicamentoso:

Na grande maioria dos casos o tratamento é feito com medicamentos via oral, que podem ser de 3 categorias: a) fitoterápicos (a base de plantas), que tem seu uso e efeito limitados; b) inibidores hormonais(finasterida e dutasterida) e c) bloqueadores adrenérgicos (doxazosina e tamsulosina, dentre outros).

O tratamento medicamentoso é bastante eficaz e pode postergar por vários anos a necessidade de cirurgia. A maior limitação é o custo, dado que o tratamento é contínuo.

Efeitos colaterais a serem destacados são distúrbios sexuais (alteração da libido), hipotensão postural (tontura ou escurecimento da vista ao levantar, por exemplo) e boca seca.

B) Tratamento cirúrgico:

A indicação dessa forma de tratamento também fica a cargo do médico.

Basicamente a cirurgia pode ser realizada através de incisão abdominal, abaixo do umbigo, ou pela uretra (via endoscópica, conhecida popularmente e erroneamente como “laser”). Geralmente se faz a cirurgia aberta em próstatas maiores que 90-100g e cirurgia endoscópica em próstatas menores.

As complicações cirúrgicas incluem a ejaculação retrógrada (esperma vai para a bexiga), disfunção erétil (relacionado também à idade) e em raros casos incontinência urinária.

Há formas de se prevenir?

Este ainda é um ponto nebuloso no conhecimento da doença. De concreto sabe-se que os asiáticos que vivem no oriente tem menor propensão à HPB. Isso nos faz supor e alguns estudos sugerem que a ingestão de soja, alguns vegetais como tomate, feijão, ervilha, brócolis e algumas frutas como a melancia poderiam inibir o crescimento da próstata, desde que ingeridos em grande quantidade e ao longo da vida. Outros ainda demonstraram que o consumo diário de vinho ou cerveja de forma moderada ou ainda exercícios físicos rotineiros estão associados a uma menor incidência dos sintomas.

Pessoalmente, e pra encerrar por hoje nossa sessão, creio que uma vida balanceada, com atitudes moderadas, sabendo dividir o trabalho e a distração, o estresse e a diversão, associados a uma alimentação saudável e diversificada e atividade física regular e consistente contribuem não somente para minorar os problemas futuros, como também pra nos darem o prazer e a alegria de viver o hoje, o aqui e o agora!

Saúde!

Dr. Edison Schneider Monteiro

Doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da USP

Título de especialista da Sociedade Brasileira de Urologia (TiSBU)

Docente da Divisão de Urologia da PUC – CAMPINAS

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